O pavilhão A TRAMA DO TEMPO propõe um encontro entre mundos que raramente se tocam: o da produção industrial e o da artesania. Uma estrutura de vergalhões de aço, organizada em um grid modular de 1×1 metro até conformar um espaço de 4×4 metros e 2,10 de altura, dá origem a uma arquitetura precisa, racional e repetitiva, expressão da lógica industrial. Essa malha, no entanto, serve de suporte para uma matéria viva: planos feitos com fibras naturais de bananeira, trançadas manualmente pelas mulheres da Fibrarte, associação sediada em Missão Velha, no Cariri cearense.
As fibras, coletadas e preparadas artesanalmente, mantêm suas tonalidades e texturas originais. O trançado manual cria variações de densidade, filtrando a luz e permitindo que o espaço revele sutis mudanças na percepção e na atmosfera. Essa alternância entre rigidez e movimento revela a dimensão sensorial da obra, uma arquitetura que se constrói no encontro entre técnica e gesto, entre a frieza do aço e a temperatura da matéria natural.
A espacialidade do pavilhão se organiza a partir de uma inversão poética. O perímetro, coberto pelas fibras, define um fora sombreado e protegido, enquanto o centro, descoberto, é o dentro, aberto à luz e à expansão do olhar. Essa inversão convida o visitante a atravessar camadas de textura e sombra até chegar a um vazio luminoso, um espaço de pausa, de respiro, onde a experiência é menos de contemplação e mais de presença.
No coração do pavilhão, um relógio mecânico de torre introduz a dimensão do tempo. A peça, com mais de 100 anos, foi fabricada pela Metalúrgica Freire – Ateliê Oficina, uma das últimas oficinas brasileiras dedicadas à fabricação e manutenção de relógios mecânicos, sinos e fundições metálicas, localizada em Juazeiro do Norte. Movido à corda, o relógio funciona de forma totalmente manual e precisa ser acionado periodicamente durante a exposição. Seus ponteiros foram fixados no teto da estrutura, projetando-se sobre a cúpula da Oca de Niemeyer, onde a sombra em movimento marca o passar das horas. Assim, o relógio conecta diferentes temporalidades: o tempo industrial, o tempo da natureza e o tempo da artesania.
A presença do relógio é também uma homenagem à tradição local de Juazeiro do Norte, onde o Padre Cícero incentivou a criação de oficinas nos quintais e altares nas salas, consolidando uma cultura em que o ofício e o sagrado se entrelaçam. Nesse contexto, o relógio não é apenas um mecanismo, mas um símbolo da permanência de saberes e da continuidade do tempo como matéria.
Ao unir o aço da indústria contemporânea, a fibra natural cultivada no território e o mecanismo centenário da oficina, o pavilhão propõe uma reflexão sobre o tempo e a matéria, sobre como a arquitetura pode ser, ao mesmo tempo, máquina e corpo, ritmo e pausa, estrutura e gesto.
Nome do projeto:
A Trama do Tempo
Evento:
14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo
Ano:
2025
Localização:
São Paulo, Brasil
Programa:
Construção Experimental
Arquitetos:
André Moraes e Carolina Mapurunga
Colaboradores:
Wesley Batista e Myllena Alves
Engenheiro estrutural:
Paulo Miranda
Execução:
André Moraes, Carolina Mapurunga, Junu Freire e Leonardo Armellin
Produção das fibras de bananeira:
Associação Fibrarte
Artesãs:
Cícera Selma, Maria Cleide Moura, Joseane de Souza, Maria Regina Saraiva, Maria Margarete, Jucileide Cruz e Adriana Gonçalves
Montador do relógio:
Junú Freire
Arte do painel:
Simone Mendes
Fornecimento dos vergalhões:
ArcelorMittal Cariri
Transportadora:
Losane Logística
Apoio logístico e infraestrutura:
Sítio Barreiras
Passagens aéreas das artesãs:
CEART
Hospedagem das artesãs em São Paulo:
More SP Hostel
Apoios institucionais:
Metro Quadrado, Araruna Empreendimentos, Viva Ateliê, Sítio Barreiras e Grupo Linard
Fotografia:
Lela Leme, André Scarpa e Igor Ribeiro